Por Vezes

Oscilações

Por vezes, acontecem certas coisas que não sabemos se tornam os dias melhores ou piores. Em um mundo de tantas experiências, aspirações e surpresas, não é de se espantar que isso aconteça. Ao olhar para algo ou alguém, em algum momento haverá algum impacto em nossa existência.

É incrível como os olhos, o sorriso e a conversa de alguém podem mudar completamente o dia, a semana, o mês… É como se nos sentíssemos seguros com a pessoa em questão; como se nela houvesse algo pronto para ser descoberto que a tornaria ainda mais singular. Mas, ao mesmo tempo, é possível que haja uma distância. Tudo parece acontecer de maneira tão próxima, tão suave, tão tranquila… E mesmo assim parece que existe um abismo que divide as coisas.

Esta oscilação de sensações é realmente incrível, pois parece ser daí que vem o motivo dessa pessoa despertar tanta atenção na outra. Obviamente, as coisas têm de estar equilibradas: nem tanta idealização, e nem tanta profundidade no tal abismo. Com isso, situações novas ocorrem frequentemente, e os laços se tornam cada vez mais profundos. A vontade de ter o outro por perto fala muito alto, pois é de desejo de quase todo mundo querer experimentar novos tipos de situações, ter contato com novas ideias, novos modos de agir e falar. Faz parte da experiência como ser-humano.

Em certos dias, a sensação ruim pode ter mais destaque: sentimo-nos tristes, deprimidos, achando que o mundo e as pessoas poderiam ser diferentes, mais complacentes e compreensivos. Em outro, a sensação boa pode ter mais destaque: sentimo-nos leves, alegres, achando que o mundo parece estar diferente, mais claro, mais vivo e mais receptivo. Mas, no fundo, tudo o que nos é externo tende a permanecer como está, quando se trata de períodos de tempo tão curtos quanto um dia: mentalidades não mudam subitamente, assim como costumes, culturas, modos de encarar diversas situações, e tudo o mais que define a vida social atual e a Terra como um todo. Portanto, na maioria das vezes, o que acontece é que apenas nós mesmos mudamos: o modo como nos sentimos e o que fazemos em relação a este sentimento.

Deve-se, contudo, compreender que quando se trata de pessoas, nada na mente é uma regra: algumas vezes, coisas incríveis acontecem em períodos ainda menores do que um dia. Pode ser em algum momento qualquer, em qualquer lugar, em virtualmente qualquer situação: tudo pode mudar. O grande abismo pode se tornar ainda mais fundo, mas também pode tornar-se plano, permitindo a passagem de tudo o que o caminho, antes impossível de ser ultrapassado, bloqueava.

Portanto, creio que não devemos desejar uma felicidade absoluta, tampouco uma tristeza implacável: a cada segundo que passa, nossas emoções oscilam devido aos fenômenos que ocorrem em nossa vida, aos acontecimentos e aprendizados, às distanciações e aproximações, ao passar o ao aproximar das pessoas que estão ao nosso redor ou do outro lado do planeta. A partir do momento em que se entende esta lógica, a relação com a pessoa que provoca boa parte dessas oscilações pode, enfim, ter algum sentido em nossas cabeças. Assim, talvez seja possível que nos entendamos melhor e, consequentemente, que expressemos ao outro tudo o que nos deixa inquietos ou inspirados.

O amor pode ser realmente estranho.

          “O bater de asas de uma simples borboleta pode causar um tufão no outro lado do mundo.” – Teoria do Caos.

Vinícius Fratin Netto – 06/11/2013

Porto Alegre.

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Eterno Inevitável

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Sentado na cadeira da sacada, o rapaz começou a escrever. As ideias não vinham, e a distração dominava o momento. O sol recém havia se posto e as estrelas mais brilhantes começavam a aparecer no leste, gradativamente tomando conta do firmamento.

Ao olhar para a lapiseira em sua mão, a distração apareceu novamente:

— Como isto veio parar em minhas mãos?

O grafite da lapiseira foi extraído da terra e passou por inúmeros processos físicos e químicos até tomar aquela forma. O plástico foi criado a partir do petróleo. Mas de onde veio o petróleo? Veio da mesma terra de onde foi retirado o grafite.

— Engraçado ver como as coisas se relacionam…

A terra (solo) veio de um processo chamado pedogênese, em que as rochas são degredadas e tornam-se parte do solo como um todo. As outras partes são formadas basicamente por água e seres vivos. Mas de onde vieram os primeiros seres vivos? Da água.

— Isso é óbvio, mas como surgiu a vida?

Não há consenso sobre isso, mas especula-se que tenha havido na Terra um ambiente favorável contendo os elementos cruciais à vida, como carbono, hidrogênio, oxigênio, fósforo e outros, após aproximadamente 1,2 bilhões de anos desde a formação do planeta. Nesse ambiente, talvez as descargas elétricas ou a radiação ultravioleta tenham servido como “catalisadores” da vida.

— Mas fica a dúvida: como a Terra se formou? E aproveitando a pergunta: como o Sistema Solar se formou?

Todos os corpos celestes do Sistema Solar se formaram aproximadamente ao mesmo tempo, há cerca de 4,7 bilhões de anos. O que possibilitou tal acontecimento foi o gradativo colapso gravitacional de uma nuvem molecular — uma enorme nuvem constituída basicamente de H2 — cujo centro acumulou maior massa e tornou-se o Sol. Pela ação da gravidade, a matéria que sobrou constituiu discos (chamados de “discos protoplanetários”) que tornar-se-iam os planetas que hoje conhecemos, dentre eles, obviamente, a Terra.

— Essa nuvem molecular não apareceu do nada… De onde ela veio? Provavelmente de fenômenos naturais do Universo, o que leva a outro questionamento: como surgiu o Universo?

A teoria mais aceita para responder a essa pergunta é a Teoria do Big Bang. Baseado nela, todo o Universo se encontrava, no princípio, em um único ponto de tamanho infinitesimal extremamente quente e denso, onde as quatro forças fundamentais da natureza (Gravidade, Eletromagnetismo, Força Nuclear Fraca e Força Nuclear Forte) ocupavam o mesmo pequeníssimo espaço. Na Cosmologia, é dado a esse ponto o nome de “singularidade”. Houve então uma enorme explosão repentina: a matéria se sobrepôs à antimatéria e o Universo começou a se expandir, esfriando-se aos poucos. Com o tempo, a energia formaria partículas, e estas, pela força da gravidade, originariam tudo o que existe.

Após essa regressão fantástica, enigmática, imprevisível e praticamente inevitável, veio mais uma pergunta:

— E o que existia antes da singularidade?

Não existia tempo nem espaço.

A resposta — ou a ausência dela — fez com que o rapaz fosse preparar um café para relaxar a cabeça e tentar encontrar algum tipo de inspiração para o malsucedido texto que tentava criar. De repente, ocorreu-lhe uma pequena faísca de ideias.

Começava ele a escrever: “Sentado na cadeira da sacada, o rapaz começou a escrever. As ideias não vinham, e a distração dominava o momento…”.

                                                          Vinícius Fratin Netto – 31/07/2013

Porto Alegre

Eclipse – Capítulos VIII e IX (Final)

Inspirado em um dos álbuns da banda Pink Floyd, o The Dark Side of the Moon, escrevi um romance chamado “Eclipse”. Cada capítulo corresponde a uma faixa do álbum, portanto são 9 capítulos (considerando as faixas “Speak To Me” e “Breathe” como sendo apenas uma).

Estes são os últimos capítulos da história!

Boa leitura!

 

VIII – Ilusão

A semana estava sendo difícil na editora: houve uma falha de um setor que resultou na perda de registros importantes de várias obras. Com isso, a impressões dos livros não poderia continuar até que um imenso processo burocrático fosse concluído. Como gerente do setor de organização, toda a responsabilidade de resolver o problema caiu sobre os ombros de Charles.

Após cinco dias de telefonas, estratégias e burocracia, o problema foi finalmente resolvido. O estresse chegou aos limites, mas aos poucos se atenuava. Não via a hora de chegar a seu apartamento e descansar daquela semana terrível. Como mal pudera ver Anne devido à pressão do setor, combinou de jantar em companhia dela.

Ao finalmente pisar em casa, depara-se com uma mesa de jantar cuidadosamente preparada por Anne. Ela o beija repetidas vezes, perguntando se conseguiu resolver todos os problemas na editora. Ele fica muito feliz e surpreso com o que ela havia preparado. Sua resposta positiva à pergunta a tranquilizou.

Estava com uma fome voraz, mas precisava tomar um banho rápido para relaxar.

— Amor, tomarei um banho rápido porque quero muito experimentar que o você preparou!

— Tudo bem, eu vou contigo.

Ambos foram ao chuveiro. Sentiam a água morna caindo sobre seus corpos desnudos. Charles se sentia privilegiado por ter uma parceira tão bela e companheira como Anne. Ao tocar em seu corpo, seus lindos cabelos pretos e seu rosto de feições delicadas, sentia um tipo de conexão que o faria feliz em qualquer ocasião. O prazer de usufruir daquela sensação era a única coisa em que pensava.

Em pouco tempo saíram do chuveiro. Após se vestirem, foram até a mesa onde o jantar que Anne preparou ainda se encontrava quente como antes. Charles salivava ao olhar para aquele belo strogonoff, acompanhado por uma panela de arroz e batata-palha. Ela sabia que o prato não era extravagante, mas nem por isso seria ruim. Pelo contrário: era um dos pratos preferidos dos dois. Mesmo assim, para dar um ar mais sofisticado, havia uma garrafa de um bom vinho na mesa.

Anne repetiu o prato uma vez; Charles, quatro.

— Sinto-me como se estivesse observando um Neandertal saboreando sua caça — disse ela dando altas risadas.

Para piorar o ataque de riso, ele imita um rugido enquanto come. Há tempos que ela não ria assim: talvez nunca o tenha feito.

Terminando de lavar a louça que utilizaram, Charles vai até o quarto, onde Anne o esperava. Deita com ela.

— Estou feliz por você ter conseguido resolver os problemas na empresa. Parabéns, meu amor! — disse ela, já com sinais de sono.

— Obrigado, querida. Se não fosse por ti, não sei se eu aguentaria tudo isso… Boa noite, Anne.

— Boa noite, Charles.

Charles acorda com a visão um pouco embaçada. Vai até o banheiro e lava seu rosto. Olha para a cama e vê Anne dormindo tranquilamente. Algo lhe parecia estranho: sentia-se pesado. Quando vai até a cozinha, percebe algo bizarro: estava tudo vazio. Fica confuso com a situação e, olhando para o quarto novamente, percebe que não há nada lá.

Desespera-se: o que diabos era aquilo? A única coisa que ainda estava lá era a janela. Relutante, ele caminha em direção a ela. Ao olhar para fora, uma surpresa: havia uma grande área cheia de grama e árvores. Charles já não entendia nada do que estava acontecendo. Virou-se novamente para o quarto, mas agora se via naquela espécie de floresta, sem qualquer sinal de seu apartamento, prédio ou cidade. Após alguns instantes, percebeu ao longe a presença de um menino que corria e dava gargalhadas. Esperando obter alguma ajuda, corre em direção ao garoto.

Estava muito quente. O sol era realmente forte. O garoto continuava a correr até que foi possível encontrar uma pequena chácara, onde se via outro garoto, de bicicleta com uma cesta com jornais, sumindo no horizonte. Olhou para aquele lugar de um modo esquisito. Algo estava muito estranho naquilo tudo. Aproximando-se da pequena casa que lá havia, depara-se com algo que o faz ficar atônito por alguns instantes: um conjunto de dez pequenas mudas recém-plantadas. Ao olhar através da janela de uma daquelas paredes, viu uma mesa com um jornal e, logo adiante, uma cama. O menino lunático que corria pela grama há momentos atrás estava agora deitado com uma compressa fria na testa. Ao seu lado, uma mulher que falava docemente com o garoto e aplicava as compressas.

— Mãe…? — Disse Charles, atordoado.

A mulher se vira em direção a ele, vai até a janela e beija-o no rosto.

— Não saia mais ao sol do meio-dia, meu amor.

Charles queria abraça-la, conversar com ela. Porém após alguns segundos olhando para o calmo rosto de sua tão querida mãe, tudo se tornou mais leve e, subitamente, viu-se deitado ao lado de Anne novamente, enquanto chovia forte.

— Um sonho… — pensou ele, emocionado por ter tido a chance de olhar novamente para o rosto de sua mãe, mesmo sabendo que tudo não passava de uma criação de sua própria mente.

No fim das contas, aquele lunático naquela velha casa era ele próprio.

 

IX – Efeito Borboleta

Alguns meses se passaram. Aquele dia estava anotado há tempos nos lembretes de Charles. Finalmente chegava a hora de um dos fenômenos que ele mais gostava de presenciar: o eclipse lunar. Anne certamente o acompanharia naquela noite para observar o evento.

Já eram nove horas da noite quando rumaram em direção à Avenida de Gaia, onde esperavam ter uma ótima visão da lua. Acertaram em cheio: a lua se destacava no céu estrelado daquela noite. Para eles, o momento era muito especial, afinal o início de sua relação aconteceu naquele lugar em uma situação parecida. A atração entre os dois aumentava a cada momento juntos.

A Terra já começava a bloquear a luz do sol que refletia na lua, dando início ao eclipse. Conforme o fenômeno se desenrolava, Charles e Anne se mantinham abraçados, em silêncio, deleitando-se com aquele magnífico momento.

Tudo que já presenciaram; tudo que já se maravilharam; tudo que já amaram; tudo que já fizeram; tudo que já falaram; tudo que já aconteceu, acontece e acontecerá; tudo que os rodeia: tudo foi eclipsado pela lua.

Vinícius Fratin Netto – 13/07/2013

Porto Alegre.

Eclipse – Capítulo VII

Inspirado em um dos álbuns da banda Pink Floyd, o The Dark Side of the Moon, escrevi um romance chamado “Eclipse”. Cada capítulo corresponde a uma faixa do álbum, portanto são 9 capítulos (considerando as faixas “Speak To Me” e “Breathe” como sendo apenas uma).

Boa leitura!

 

(Devido à política de direitos autorais do Youtube, a única versão disponível da música era esta)

VII – Cores

A temporada de dias frios terminava. O sol agora tomava conta das ruas. Havia bastante movimento devido à inauguração do Parque das Alegrias, um parque de diversões que estava sendo construído há mais ou menos um ano, e que agora foi concluído. Era o programa perfeito para as famílias, os amigos e, certamente, os casais.

Charles havia combinado de se encontrar com Anne por volta das duas horas da tarde na entrada do metrô. Com cinco minutos de atraso, ambos se acharam em meio às pessoas. De lá, partiram em direção ao parque, onde pretendiam ficar até a noite.

Chegando à fila relativamente grande do local, resolveram conversar sobre alguns livros que haviam lido recentemente. Anne havia emprestado alguns livros de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre a Charles, enquanto ele emprestara livros de Carl Sagan e uma edição especial de Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, de Isaac Newton. Era interessante perceber como os dois conversavam sobre diversos assuntos de um modo racional e utilizando-se brilhantemente do ceticismo: seu amor não era apenas sentimental, mas também intelectual.

Conseguiram comprar as entradas e começaram a explorar aquele imenso lugar: havia ilusionistas, tiro ao alvo, montanha-russa e muitas outras atrações. A primeira parada foi uma tenda onde eram dadas três pequenas bolas a quem quisesse participar, em que a pessoa deveria acertar as três em algumas espécies de cestas ao fundo do lugar. A tarefa era difícil, mas a recompensa era interessante: um urso de pelúcia enorme, podendo-se optar por cinco cores, como disse o dono da tenda com um sorriso que se assemelhava ao de um palhaço de circo.

Charles tenta primeiro: erra as três bolas.

— Sou tão bom nisso quanto um bicho-preguiça — disse rindo da própria desgraça.

— Ah para! — respondeu Anne — Vamos ver se eu consigo.

Anne tenta dessa vez: acerta as três bolas. Os dois riem da situação. Ela agora tinha direito à recompensa.

— Que cor eu escolho? — perguntou ela para Charles.

— Qualquer cor que quiser, querida.

— Vejamos… Vai ser azul então!

Ela vira-se ao dono da tenda.

— Eu quero o urso azul!

— Só temos branco, minha jovem — responde.

— Mas não eram cinco cores? — pergunta ela, confusa.

— São sim: cinco ursos brancos, portanto cinco cores, só que iguais! Escolha a cor que quiser, desde que seja branco.

Charles e Anne se olham e decidem ficar com o urso branco, afinal o dono daquela tenda não parecia raciocinar muito bem. O que importava naquele momento era o símbolo da supremacia de Anne, brincavam.

Depois dessa situação, passaram por todo o parque: comeram algodão doce, assistiram a uma pequena apresentação da orquestra sinfônica infantil da cidade no local e passaram por quase todos os brinquedos. Quando se deram por conta, o sol já estava praticamente desaparecendo no horizonte. Decidiram, então, ir para o grand finale: a roda-gigante.

As luzes noturnas ainda não estavam acesas. Já na roda gigante, estava o casal com as mãos dadas observando as pessoas da altitude. Após alguns momentos, Anne chama a atenção de Charles.

— Olha para lá!

A visão era incrível: o sol se punha no horizonte em um belo degradê do amarelo ao azul, algo que era realmente magnífico se visto daquela altura de mais de vinte metros. Para completar aquele momento, como ainda não havia iluminação noturna, era possível ver estrelas se revelando no lado do céu oposto ao sol.

Ao lado de Anne, e presenciando tal magnífica visão celestial, Charles olha para seus olhos.

— Se a vida tem algum sentido ou finalidade, tenho certeza de que posso encontra-los neste exato momento.

Estava ali uma demonstração da magnificência do cosmos: em um plano estavam astros a distâncias tão grandes que a mente humana não consegue compreender; e em outro estava Anne, a poucos centímetros de distância. Estes dois planos tão distintos completavam a existência de um único homem.

Talvez os planos não sejam tão distintos assim, afinal quando se trata do infinito — do cosmos, por assim dizer — as coisas são um pouco estranhas. Por quê? Mesmo que um número seja muito grande, sempre é possível adicionar “um” a ele. Portanto, não é incorreto afirmar que o número “um” está tão perto do infinito quanto “um bilhão”.

Tratando-se da vastidão do cosmos, Anne estava tão perto dele quanto as estrelas: talvez esta fosse a explicação para aquele momento.

Eclipse – Capítulo VI

Inspirado em um dos álbuns da banda Pink Floyd, o The Dark Side of the Moon, escrevi um romance chamado “Eclipse”. Cada capítulo corresponde a uma faixa do álbum, portanto são 9 capítulos (considerando as faixas “Speak To Me” e “Breathe” como sendo apenas uma).

Boa leitura!

 

VI – Maniqueísmo

Algumas semanas se passaram desde o dia do primeiro passeio na Avenida de Gaia. Charles e Anne continuavam trabalhando normalmente, deixando seus momentos a dois para fora do ambiente de trabalho. Como era sexta-feira, combinaram que ela passaria a noite no apartamento dele.

Após assistirem alguns filmes, o clima se torna mais intenso e o sexo toma conta do ambiente. A atração física entre os dois era grande. Passadas algumas horas, quando ambos estavam deitados na cama, Anne pergunta de onde veio uma cicatriz que ele tinha um pouco acima da cintura. Houve um breve silêncio.

— Desculpe… É que eu não tinha percebido ela ali… Achei que era alguma mancha de nascença. — Disse Anne.

— Tudo bem, não precisa se desculpar — responde compreensivo —. É que faz tempo que eu não falo disso com alguém.

— O que é?

Charles começa a se lembrar dos tempos em que servira no exército nacional.

Ser soldado não o agradava, mas pelo menos garantia algum dinheiro para se sustentar. Ficou três anos em treinamento e foi enviado a um pequeno combate em uma região inóspita do Oriente Médio, onde um grupo de extremistas mantinha sua base. O evento não teve proporções colossais, mas foi suficiente para que seis dos vinte e quatro de seus colegas fossem mortos e ele baleado. A bala havia se alojado próxima a coluna: por pouco não ficara sem o movimento das pernas.

Os problemas não terminavam por ali, afinal era necessário retirar a bala. Como não havia muitas ferramentas disponíveis, boas condições e morfina, a dor foi praticamente insuportável, tendo Charles desmaiado de duas a três vezes no decorrer da operação. Felizmente, ele resistiu. Os reforços chegaram algumas horas depois, levando-o em segurança de volta para seu lar.

Logo após se recuperar completamente, optou por sair do exército, tendo seu pedido aceito no mesmo momento devido a sua “contribuição para o país”, como haviam chamado. Algum tempo depois, conseguiu um emprego como atendente em uma editora na cidade, onde alguns anos mais tarde se tornaria gerente de um dos setores.

— Nossa… Desculpe eu ter perguntando. Não sabia que era algo tão sério — disse Anne um pouco perturbada.

— Não fique assim. Foi algo muito ruim, mas felizmente consegui superar aquilo tudo. Além do mais, não vejo problemas em contar detalhes do meu passado para uma pessoa amada…

— É? — pergunta timidamente.

— Claro que sim.

Poucos segundos depois, após acariciar os cabelos de Anne, Charles cochicha em um de seus ouvidos:

— Eu te amo, Anne…

— Eu te amo, Charles…

No dia seguinte, à noite, deixa Anne em sua casa e pega o metrô. Chegando a seu apartamento, toma um banho e se arruma para dormir. Alegre por passar mais um dia com a mulher que mexia com seus sentimentos, deita sorridente em sua cama. Aos poucos, algumas lembranças tomam sua mente.

Recordava-se de parte do conflito onde foi baleado, quando um de seus aliados, desesperado, correu atirando em direção aos inimigos: suicidava-se esperando que isso ajudasse seus colegas a completarem a missão, podendo assim voltar para casa. Vendo aquele soldado no chão em seus últimos momentos, pôde perceber um movimento em seus lábios: “Somos nós, ou eles”.

 O maniqueísmo daquele momento ainda provocava calafrios em Charles.

— É sempre “nós” e “eles”… Espero ainda poder presenciar um momento na história onde o “eles” deixará de existir; não porque será exterminado completamente, mas sim porque fará parte do “nós” — pensou.

Adormece.

A Gota

Aquela pequena gota deslizava pelos pontos mais profundos daquela rua repleta de paralelepípedos. A cada centímetro que percorria, trazia consigo um pouco das impurezas dos locais pelos quais passava. Era ela apenas uma fração infinitesimal daquela enorme cidade. Pessoas caminhavam pelas ruas: ansiosas, temerosas, incertas de seu futuro, desiludidas, inconformadas consigo mesmas, indiferentes a quem não lhes convinha zelar.

A gota continuava acumulando as impurezas daquela cidade, que aparentemente nunca sairiam dali. Chovia torrencialmente.

Vinícius Fratin Netto – 21/07/2013

Porto Alegre

Eclipse – Capítulo V

Inspirado em um dos álbuns da banda Pink Floyd, o The Dark Side of the Moon, escrevi um romance chamado “Eclipse”. Cada capítulo corresponde a uma faixa do álbum, portanto são 9 capítulos (considerando as faixas “Speak To Me” e “Breathe” como sendo apenas uma).

Boa leitura!

 

V – Reflexos do Mérito

Na manhã daquele domingo, Charles aproveita o fato de Anne ainda estar dormindo e calmamente deixa a cama. Caminha até a cozinha para preparar o café-da-manhã. Após algum tempo procurando os ingredientes básicos para a refeição, põe-se a arrumar aquela simpática mesa. Ao terminar, vai até o quarto onde Anne estava e a acorda delicadamente com um beijo na testa. Ela desperta e então olha sorridente para ele.

— Fiz o café para nós. Acho que você vai gostar — disse ele.

— Sério? Não precisava fazer isso sozinho.

— Sem problemas, afinal se eu fosse te esperar já seria a hora do almoço — responde com um sorriso cômico.

— Bom… A noite foi longa, por isso eu estava demorando a acordar — diz ela sorrindo maliciosamente.

Os dois vão até a mesa. O café estava melhor do que Charles esperava. Ela também o elogia. Como ambos estavam de folga, pensam a respeito do que poderiam fazer naquele dia. No fim, resolvem que vão almoçar fora e dar algumas voltas por aí. Como ainda era cedo, passaram o tempo conversando e namorando.

Quando já era meio-dia e meia, vestem as últimas peças de roupa e partem para o restaurante mais próximo. Ao sair do portão do condomínio, Charles é pego de surpresa quando Anne segura sua mão: há tempos não se sentia tão feliz. Era engraçado reparar nas pessoas que cruzavam o caminho do casal, pois parecia que nunca haviam visto um negro de mãos dadas com uma branca. Como a maioria das pessoas daquela cidade era de descendência europeia, a aversão não era algo muito difícil de perceber.

— Algumas pessoas devem achar que eu estou te sequestrando — disse ele ironicamente.

— Pela reação desses imbecis, deve ser. Mas o que importa é o que nós queremos, e não eles.

Essas palavras aumentaram ainda mais a admiração de Charles por aquela linda garota, que agora também correspondia seus sentimentos. Chegaram ao lugar que procuravam: o Wave Restaurant, onde os preços eram atraentes e a gastronomia fenomenal. Felizmente havia mesas disponíveis. Após se sentaram e pedirem seus pratos, ele comenta:

— Sabe, as pessoas daqui são, no geral, muito preconceituosas. É uma pena. Quando veem um negro caminhando pela rua, põem as mãos no lugar onde guardam o dinheiro, para “protege-lo”. Tudo é por causa do maldito dinheiro. Eles desperdiçam suas vidas tentando acumular as tão desejadas verdinhas e acabam vivendo em um mundo isolado, onde é mais fácil entender a bolsa de valores do que o preconceito e a discriminação que eles espalham por aí.

— Para eles, as tradições têm mais valor que a razão. Desde pequenos foram criados com a lógica capitalista e os velhos preconceitos. Preferem atacar os oprimidos aos opressores. É realmente triste aceitar que essa realidade ainda exista neste século. A menos que os valores e pensamentos passem por uma grande reestruturação, a tendência é que tudo continue como está. Mas nós mudaremos isso com o tempo; nós, como seres-humanos. Pode acreditar!

— Tenho certeza que um dia as coisas mudarão.

Após mais alguns minutos de reflexões, seus pedidos chegam e ambos os saboreiam. Ao fim da refeição, de livre vontade, dividem a conta e vão dar algumas voltas. Na Praça da Renascença, as folhas das árvores estavam mais bonitas que o habitual devido à chuva do dia anterior. O chão estava coberto de folhas parcialmente secas por causa do calor do sol fraco daquela tarde.

Enquanto Charles e Anne conversam e trocam discretos beijos sentados em um dos bancos em meio às árvores já secas, surge um pensamento.

— Enquanto muitas pessoas só ligam para o dinheiro e seus preconceitos, nós estamos aqui tendo um ótimo dia neste lindo lugar. É interessante como, às vezes, as coisas mais simples nos tornam muito felizes — diz Anne olhando para Charles.

— Você não poderia estar mais correta — responde sorridente.

Beijam-se amorosamente.

 

Ouvem risadas de uma criança pequena. Olham em direção a ela para entender o que se passava: era uma criança com um grande sorriso, feliz por ter encontrado uma moeda de cinco centavos em meio às folhas no chão.